Cirurgia bariátrica para adolescente com obesidade?

O tratamento cirúrgico do jovem obeso apresenta bons resultados em inúmeros estudos publicados e com seguimentos a longo prazo

Os números não escondem. A pandemia do século, a diabesidade, também atinge os adolescentes. No último Vigitel, (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico) referentes a 2019, as taxas de obesidade quase triplicaram desde 1975 e aumentaram quase cinco vezes entre crianças e adolescentes.

O excesso de peso foi documentado em 19,4% dos adolescentes de 15 a 17 anos de idade, o que corresponde a um total estimado em 1,8 milhão de pessoas, sendo 22,9% de moças e 16% dos rapazes. E isso também foi constatado nos EUA, em dados de 2018, do CDC (Center for Disease Control), 21,2% dos adolescentes, com idade variando de 12 a 19 anos, eram portadores de obesidade.

E mais sinais de alerta existem. Quando o choque de pandemias, uma passageira como a Covid 19 se encontra com a diabesidade, que está há décadas fora de controle, o cenário é sombrio. Num estudo norte-americano, em 43.000 internações hospitalares, a presença de obesidade e/ou diabetes foi o único fator isolado de predição de internação hospitalar em jovens acima de 12 anos.

Um adolescente com obesidade leva a um adulto com 3 vezes mais chance de desenvolver diabetes, 5 vezes mais chance de apresentar doença coronariana, 3,5 vezes, mas probabilidade de doença renal terminal e 4,5 vezes mais chance de ter algum grau de limitação de deambulação. A obesidade associada a esses fatores leva a uma diminuição da expectativa de vida desse adolescente

E mais, um estudo chamado TODAY demonstrou que o diabetes tipo 2 nessa faixa etária tem mais difícil tratamento quando comparado com os adultos

Há décadas, os cuidados com a obesidade infantil e na adolescência estão em segundo plano por causa de uma falsa dicotomia. Todos os esforços foram direcionados para a prevenção – um objetivo nobre e louvável.

Mas, em face dos esforços sérios para prevenir a doença, a prevalência aumentou implacavelmente. Enquanto isso, as crianças e adolescentes afetados têm poucas opções de tratamento. De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria, as possibilidades farmacoterapêuticas mais recomendadas são sibutramina, orlistate e liraglutida. Porém estudos de eficácia a longo prazo ainda são necessários.

Sabendo-se da maior prevalência de casos de obesidade e de suas consequências na adolescência, casos mais graves, com índices de massa corpórea (IMC) ajustados maiores e doenças associadas mais graves de serem controladas, a cirurgia bariátrica deve ser considerada.

O tratamento cirúrgico do adolescente com obesidade apresenta bons resultados em inúmeros estudos publicados e com seguimentos a longo prazo. Comparando com adultos com obesidade submetidos a cirurgia bariátrica, a perda de peso é semelhante, o controle do diabetes é melhor e as taxas de complicações cirúrgicas são menores. Hipertensão arterial, esteatose hepática e problemas com o colesterol e triglicérides também têm boa resolução ou controle após a cirurgia.

Cuidado retardado é cuidado negado. A verdade disso é óbvia na medicina de emergência. No caso de um acidente vascular cerebral ou lesão traumática, atrasos desnecessários no atendimento levam a danos imediatos.

Mas, com uma doença crônica e progressiva, o dano pode ser mais sutil. Acrescentar o viés sistêmico e o atraso no atendimento pode se tornar um problema e tanto para a saúde das pessoas afetadas. Muitas vezes, este é o caso de uma pessoa que vive com obesidade.

Adolescentes que têm indicação de cirurgia bariátrica apresentam melhores resultados clínicos se a fizerem mais precocemente.

Além de simplesmente reduzir a quantidade e qualidade de vida das pessoas que vivem com obesidade grave, não há uma boa razão para o retardo ao cuidado com o portador de obesidade.

As evidências demonstram que precisamos agir muito mais cedo para garantir que as pessoas com obesidade grave não sejam significativamente incapacitadas no momento em que estiverem recebendo tratamento e as sequelas serem irreversíveis.

Por Ricardo Cohen

Coordenador do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, de São Paulo.

Data: 11/04/2022
Fonte: VEJA.COM/SÃO PAULO