Perder 15% do peso impede evolução do diabetes e suas complicações

Um novo estudo publicado na revista científica The Lancet reúne evidências da importância da perda de peso no controle da diabetes tipo 2.

O levantamento aponta que reduzir os dígitos da balança em 15% pode impedir a evolução da doença e até reverter complicações metabólicas. Daí porque essa abordagem deveria ser priorizada entre pacientes com o quadro.

Isso ocorre porque a perda de peso está diretamente ligada à diminuição dos níveis de glicose no sangue, segundo um dos autores do estudo, o cirurgião Ricardo Cohen, que é coordenador do Centro Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em São Paulo, e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM).

O elo entre obesidade e o diabetes do tipo 2

Para assimilar melhor esse achado, é importante voltar alguns passos e entender como uma situação está ligada à outra.

A insulina é um hormônio produzido pelo pâncreas e que tem como função colocar o açúcar vindo dos alimentos dentro das células, o que culmina na geração de energia.

No contexto do diabetes do tipo 2, a produção desse hormônio até acontece, mas ele não consegue fazer sua tarefa direito – é o que se chama de resistência à insulina. Como consequência, sobra açúcar na circulação, situação que abre brecha para uma série de encrencas, de perda de visão a infarto.

Uma das explicações para esse funcionamento capenga da insulina está na genética. Mas o grande fator que predispõe ao quadro mesmo é a obesidade.

Por isso, manejar o diabetes não significa simplesmente controlar a glicemia. “O tratamento da obesidade é que tem como efeito o equilíbrio do açúcar no sangue”, raciocina Cohen.

No fim das contas, perder peso representa uma proteção contra as piores complicações da doença, que são as doenças cardiovasculares e renais, cegueira e amputações.

“Muitas vezes o tratamento da obesidade deve envolver o uso de remédios ou cirurgia, já que, para alguns indivíduos, não é simples apostar apenas em dieta e exercícios físico”, completa o médico.

O estudo aponta que oito em cada 10 pessoas com diabetes vão precisar de intervenções adicionais, além da mudança no estilo de vida, para a manutenção ou perda significativa de peso.

Avanços no horizonte

“Novas drogas estão surgindo para combater a obesidade. Algumas já foram aprovadas nos Estados Unidos e outras estão em estudos de fase três. Há opções tão poderosas quanto uma cirurgia”, conta o médico.

A semaglutida, que é indicada para o tratamento do diabetes, passou por pesquisas que relatam sua alta eficácia contra a obesidade – já se observou uma perda média de 15% do peso corporal após um ano e meio de uso. O medicamento ainda não foi aprovado no Brasil para essa finalidade.

Em estudos temos a tirzepatida, que promete, além de combater a obesidade e o diabetes, controlar melhor o açúcar no organismo, evitando a hipoglicemia.

Como definir o melhor caminho

Na busca pela perda de peso, a escolha entre focar 100% em mudanças de estilo de vida, recrutar medicamentos ou partir para a cirurgia metabólica – que é a última opção – deve ser feita com a avaliação do médico.

A primeira questão a ser analisada é o grau da obesidade. “Ele não é definido somente pelo IMC (índice de massa corpórea). É preciso verificar também questões como adiposopatia grave [um distúrbio do tecido adiposo/gordura], presença de resistência à insulina, entre outros”, exemplifica Cohen.

Agora, mesmo que fique claro que o ideal é prescrever remédios, o indivíduo deve, em paralelo, receber orientações para melhorar a sua alimentação e incorporar os exercícios à rotina. Afinal, esses são hábitos saudáveis que protegem a saúde de diversas maneiras. A cirurgia costuma ser aventada quando esse combo todo não funciona.

“A bariátrica é aquela indicada a indivíduos que têm complicações por causa do excesso de peso, como doenças articulares, hérnias de disco, refluxo…”, ensina o Cohen.

Já a cirurgia metabólica tem como principal objetivo o controle do diabetes. “Aqui, a doença ou suas complicações não têm a ver com o IMC do paciente, mas com a gravidade e o controle inadequado do quadro”, esclarece o médico.

“Cirurgia metabólica trata primariamente o diabetes e as condições associadas a ele, como hipertensão, colesterol e triglicerídeos elevados”, acrescenta o especialista.

Data: 20/12/2021
Fonte: VEJA SAÚDE/SÃO PAULO