Pane no sistema: como lidar com uma crise de ansiedade

A crise de ansiedade é uma situação capaz de nos bombardear com diversos sentimentos – tristeza, angústia, medo, nervosismo, entre outros. Ela pode surgir e ganhar força por meio de sinais discretos, mas que não podem passar despercebidos. Por isso, é importante estar sempre atento ao seu corpo e mente.

E para te explicar tudo sobre a crise de ansiedade e como lidar com ela, separamos o conteúdo em alguns tópicos principais. Vamos lá?

  1. Antes da crise de ansiedade
  2. Durante a crise de ansiedade
  3. Como atravessar a crise de ansiedade
  4. Depois da crise de ansiedade

É como um brinquedo de dar corda: tudo começa com um tímido frio na barriga, que vai ganhando cada vez mais força. Aos poucos, a respiração fica mais curta até que o ar passa a fazer falta. Enquanto isso, o coração dispara sem motivo aparente.

As mãos tremem, um suor frio percorre as costas, a visão fica turva e os pensamentos se embaralham. De repente, você perde o foco e é tomado pelo medo — ou seria um pressentimento? — de que tudo, tudo, tudo vai dar errado. A sensação é intensa e pode até parecer com a morte, mas os sinais relacionados são típicos de uma crise de ansiedade aguda.

O mais provável é que todos nós venhamos a ter algumas dessas sensações em determinado momento da vida – antes da entrevista para aquele emprego com que você sempre sonhou ou ao encarar o término complicado de um relacionamento de anos.

A ansiedade é a resposta do nosso corpo a uma situação de estresse, um sentimento natural e bastante útil em circunstâncias como essas, já que antecipa o que está por vir e permite que a gente possa se preparar para o pior ou para o melhor (afinal, conquistas também geram ansiedade).

Os problemas surgem quando nossa reação se torna desproporcional à situação, provocando uma angústia quase incontrolável. “A pessoa começa a imaginar cenários catastróficos e desfechos muito negativos, que na maioria das vezes não condizem com a realidade”, explica a psicóloga Ana Carolina Borges Peixoto Scarano, da gestora de saúde Alice.

Quando esse estado emocional passa a interferir no dia a dia, prejudicando a qualidade de vida, a ansiedade ganha os contornos de uma doença.

A ansiedade patológica é uma velha conhecida dos brasileiros: nosso país é recordista em casos, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde). Mais de 9% da população brasileira apresentaram o transtorno, segundo dados de 2019.

A pandemia da covid-19 agravou esse quadro: uma pesquisa da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) apontou que cerca de 80% dos brasileiros tiveram um aumento na ansiedade durante os meses de maio, junho e julho de 2020.

Medo da morte, da perda de entes queridos e da renda familiar, falta de convívio social e de previsibilidade do futuro, consumo exacerbado de notícias alarmantes e até mesmo a ansiedade de se sentir (e se mostrar) bem em meio ao caos, impulsionada pelas redes sociais: todas são possíveis razões para estarmos vivendo uma epidemia de ansiedade. E embora o distúrbio não tenha cura, dá para aprender a identificar e a lidar com as crises.

Antes da crise de ansiedade
Reconheça os sinais

A crise de ansiedade é um estado emocional em que se manifestam sintomas físicos, mentais e comportamentais. Tem origem em algum tipo de gatilho: uma situação, um fato ou pensamento que favorece um quadro ansioso.

Preocupações com o futuro e medo de falar em público, de dirigir ou sair de casa são exemplos que desencadeiam uma crescente inquietação. Essas situações podem colocar o corpo em um falso estado de alerta, que começa a se manifestar no cérebro.

“O que acontece é uma reação adaptativa, conhecida como luta-e-fuga. Quando estamos em uma situação de perigo, ou você foge ou luta contra ele, e o corpo se prepara para desempenhar as duas opções. No caso de uma ansiedade patológica, o cérebro vai disparar essa reação quando não há um perigo real, ou até pode haver um perigo, mas a resposta vai ser desproporcional à ameaça”, explica a psiquiatra Isabela Paixão, que integra a comunidade de saúde da Alice.

O cérebro reage com uma descarga de adrenalina, e o corpo começa a produzir sintomas físicos. Quem nunca passou por uma crise de ansiedade antes pode até achar que está sofrendo um infarto, tamanha a intensidade desses sinais.

Rapidamente, a sensação de mal-estar e angústia toma conta dos pensamentos. O tempo de crise é variável, mas a média é entre 30 e 40 minutos.

Durante a crise de ansiedade
O que acontece no seu corpo

Cérebro

Reação exagerada da amígdala cerebral, que provoca o desequilíbrio de serotonina e libera um alto nível de adrenalina no organismo – responsável por desencadear os demais sintomas físicos.

Olhos

As pupilas se dilatam para entrar mais luminosidade, mas a visão pode ficar turva e embaçada.

Músculos

O estado de alerta estimula a contração muscular, que posteriormente pode deixar o corpo dolorido.

Peito

Os batimentos cardíacos acelerados promovem aumento da circulação sanguínea, o que demanda maior consumo de oxigênio. A respiração fica curta, e a pessoa sente falta de ar, tontura e vertigem.

Coração

‍Taquicardia e aumento da pressão arterial, que intensificam a distribuição de sangue em algumas partes do corpo.

Estômago

A liberação de adrenalina e cortisol irrita o estômago, provocando dor e até vômitos.

Intestino

A adrenalina inibe a função do órgão, que passa a receber menos sangue.

Mãos

Ficam frias, já que o sangue é direcionado para outras partes do corpo, fora das extremidades. Suor e tremores são causados pelo hiperestímulo do sistema nervoso.

Pele

O aumento do fluxo sanguíneo na pele, mais especificamente para braços e pernas, pode dar a sensação de formigamento ou coceira.

Como atravessar a crise de ansiedade

As primeiras crises podem ser difíceis de compreender, o que leva muitas pessoas para o hospital, achando que estão com problemas respiratórios ou cardíacos.

“Muitos pacientes chegam com queixas de sintomas clínicos, como tensão muscular, dor de cabeça e cansaço, e não falam sobre as preocupações, que consideram naturais”, diz o médico Érico de Oliveira, clínico geral do Hospital Alemão Oswaldo Cruz (HAOC).

Mesmo pessoas com casos graves de ansiedade levam, em média, sete anos para buscar ajuda especializada para cuidar de sua saúde mental, aponta um estudo da Universidade Harvard. Quando o quadro é mais leve, a demora pode chegar a 16 anos.

É tempo demais na visão dos médicos, já que, se agir logo na primeira vez que sofre uma crise, a pessoa tem boas chances de aprender a controlar o crescimento dos sintomas e não voltar a ter um colapso.

Em muitos casos, é necessário deixar a emoção se autorregular. Mas cada um pode conhecer seus gatilhos e tomar algumas medidas para que a escalada de reações não se intensifique.

Algumas dicas que podem ajudar a passar pelo momento de forma mais amena:

Respire fundo e devagar

Não é fácil controlar a respiração no momento da crise. Mas, com um pouco de prática, é uma medida que ajuda a acalmar os demais sintomas físicos. “Com um padrão respiratório mais lento, você reduz a resposta do sistema nervoso a essa crise. Isso vai te tranquilizando e pode fazer que a crise acabe mais rápido”, explica a psiquiatra Débora Kinoshita, do HAOC.

Procure um local calmo

Se a crise aparece no meio da rua, de um evento social ou no ambiente de trabalho, tente ir para um ambiente mais tranquilo e silencioso – nesse caso, o banheiro pode ser uma boa opção. Controle o que você pode: elimine as distrações por alguns minutos e deixe o celular de lado, para evitar que novos gatilhos aumentem a ansiedade.

Compartilhe seus sentimentos

Dividir o que está acontecendo com quem está ao redor pode tornar o momento um pouco mais leve. Quem tem ansiedade social, por exemplo, pode ter uma crise ao falar em uma reunião de trabalho. “Se a pessoa percebe os sintomas – gagueja e sente o coração acelerado -, pode dividir como se sente com os colegas. Muitas vezes, apenas por falar ‘gente, estou muito ansioso’, você já tem um alívio”, diz Ana Carolina, psicóloga da Alice.

Pense que é passageiro

Por mais que os sentimentos pareçam um turbilhão interminável, entender que é um momento que terá fim pode ajudar a acalmar os sintomas. “Tenha em mente que a crise vai passar, que ela tem um tempo limitado e que, apesar da sensação de morte, não vai te matar”, aponta Débora Kinoshita.

Depois da crise de ansiedade

Quando os sintomas físicos finalmente vão embora, você passa a ter mais controle sobre os próprios pensamentos. Mas a crise deixa um rastro de cansaço extremo, dores musculares e cabeça pesada.

“Para contrabalancear a descarga de adrenalina, o corpo tenta compensar o atraso e volta de uma vez, em um efeito rebote”, explica a psiquiatra Isabela Paixão. É por isso, por exemplo, que o intestino pode soltar de repente.

O principal desafio após vivenciar uma crise de ansiedade é entender que o episódio não te define. Pelo contrário, o mais importante nesse momento é procurar ajuda profissional e contar com a sua rede de apoio para elaborar os significados dessa experiência.

Um dos principais desfechos de uma crise de ansiedade, talvez, seja a nossa capacidade de conseguir olhar para a situação com algum distanciamento. Assim, é possível reconhecer determinados gatilhos para as nossas sensações, reações e até pensamentos.

Os gatilhos são respostas da nossa mente para alguma vivência que a gente teve. Nesse sentido, o grande objetivo é reconhecer as associações que estão ligadas à crise de ansiedade.

É a partir do momento que conseguimos ter alguma clareza sobre os nossos gatilhos que podemos construir uma resposta mais saudável em relação a eles e, assim, ressignificar essa vivência de uma forma que a gente possa se sentir melhor e com mais qualidade de vida.

Data: 21/09/2021
Fonte: TIME DE SAÚDE/SÃO PAULO