Diabetes: cirurgia metabólica é eficaz no tratamento de quem mais precisa

Estamos na era da informação acessível e de conhecimento democratizado. O diabetes é uma enfermidade inicialmente de tratamento clínico, porém os cirurgiões que se dedicam a tratar esses pacientes devem – em conjunto com a equipe multidisciplinar (endocrinologista, cardiologista, nutricionista, psicólogo) que os conduzem – optar pelas melhores medicações, orientar quanto às modificações no estilo de vida e dietas, e opinar sobre o momento oportuno de facultar o acesso à cirurgia sem a segregação determinada pela relação do peso e da altura (índice de massa corpórea).

A Cirurgia metabólica tem como objetivo controlar o diabetes do tipo 2, sem vincular ao peso do paciente, entra oficialmente no Brasil como uma opção para o tratamento de uma doença crônica, progressiva e silenciosamente letal, conforme resolução anunciada pelo Conselho Federal de Medicina no dia 7 de dezembro de 2017. Não estamos falando de simplesmente indicar uma operação sobre o tubo digestivo, mas sim colocar essa alternativa como uma das ferramentas de tratamento. Existem fortes evidências que o efeito antidiabético acontece sem relação ao peso do paciente, sendo que a grande incidência do diabetes acontece em obesidade grau 1 ou leve.

Discriminar aqueles que mais necessitam de tratamento efetivo, seja pelas melhores e caras medicações de última geração ou por cirurgia, é condenar o indivíduo a risco cardiovascular aumentado. Tratar diabetes é fazer cardiologia preventiva. E os infartos e acidentes vasculares cerebrais custam vidas e recursos financeiros. Será que numa isquemia miocárdica, se limita o acesso a cirurgia ou “stents” de coronárias porque o paciente é obeso? Claro que não! Então por que dificultar o acesso à cirurgia metabólica antes que tenham o problema cardiológico? E se o diabetes evoluir com insuficiência renal e precisar de diálise? Deve-se deixar de atender o paciente porque tem peso acima do considerado “normal”?

O Sistema Único de Saúde deveria fornecer as insulinas e remédios orais e injetáveis de última geração, que têm custos elevados. Mas mesmo com todo esse arsenal, o controle do diabetes, doença crônica, progressiva e devastadora, é ruim. E a cada ano que passa, as doses aumentam e o controle clínico por vezes piora. Nestas circunstâncias, a cirurgia leva ao melhor controle, fazendo com que o paciente reduza a dosagem dos remédios, normalmente de baixo custo, como a metformina, que é distribuída pelo SUS. O procedimento salva vidas e economiza dinheiro.

Os sistemas público e privado devem dispor do melhor tratamento possível, e no caso do diabetes do tipo 2, sem dúvidas, a cirurgia está associada ao melhor manejo clínico. Convém fazer a analogia: não existe polêmica, estudo de custo-efetividade e avaliação de estratégias de incorporação de tecnologia quando se trata de indicar a cirurgia para um câncer de ovário em uma mulher. Como na oncologia, onde a cirurgia pode ser uma opção salvadora para controlar a evolução da doença e permitir que a quimioterapia funcione melhor, a cirurgia metabólica pode levar, em casos selecionados, a controlar o diabetes sem medicações ou insulina e fundamentalmente aumentar a eficácia do tratamento clínico. Tudo isso com pouquíssimas complicações.

Não há controvérsias no Brasil e no mundo. Quando bem indicada, a cirurgia metabólica, sem estar atrelada a obesidade grave, deve ser oferecida para aqueles que necessitam.

Ricardo Cohen é cirurgião e coordenador do Centro de Especializado em Obesidade e Diabetes do Hospital Oswaldo Cruz e João Caetano Marchesini é cirurgião bariátrico e presidente da Sociedade Brasileira Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM).

Website: http://www.sbcbm.org.br

Data: 05/03/2018
Fonte: TERRA